Perda de passageiros dos ônibus é ruim para mobilidade urbana como um todo, dizem especialistas

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Por ano, deixaram de ser transportados 215 milhões de passageiros e R$ 680 milhões não foram arrecadados.

 

ADAMO BAZANI

Os dados são muito preocupantes. Em 2015, as empresas de ônibus deixaram de transportar 900 mil passageiros por dia, o que representa 215 milhões de pessoas a menos no transporte público no período de um ano, como já noticiou o Blog Ponto de Ônibus com base em dados da NTU – Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos.

Isso significa que para os sistemas de transportes, deixaram de ser arrecadados em torno de R$ 680 milhões. No entanto, muita gente erra ao pensar que esta arrecadação seria em benefício das empresas de ônibus.

Na verdade, esta perda é de toda a sociedade porque os congestionamentos e poluição devido ao excesso de carros trazem custos diretos e indiretos como com a saúde pública, perda de produtividade e necessidade de maiores investimentos em infraestrutura para veículos de passeio. Além disso, quanto menos passageiros no todo, maior será a tarifa individual. É menos gente dividindo o “bolo dos custos”.

O agravamento destes números em relação à perda de demanda do transporte público se dá por causa da crise econômica. No entanto, antes mesmo da crise, o transporte público já vinha perdendo passageiros e os problemas são mais complexos.

Sobre a crise, na Revista da NTU, o presidente da entidade, Otávio Cunha, diz que a intensidade da perda de passageiros chamou a atenção.

“O que estamos vivendo é um fenôneno. Em nosso setor, nem sempre que há dificuldade econômica ocorrem perdas. Ao contrário, costumamos ter até ganhos na demanda, já que algumas pessoas, em geral, migram do carro para o ônibus. Mas, dessa vez, o nível de atividade econômica caiu muito, com inflação altíssima e desemprego histórico. Esses fatores, somados aos problemas da mobilidade urbana, explicam essa queda”
A crise, entretanto, poderia ser menos sentida pelos transportadores e pelos passageiros se no país houvesse medidas de estímulo ao transporte público e financiamento justo do uso do espaço urbano.

Um dos exemplos que precisam ser equacionados, citados na publicação, foi justamente de Curitiba e região metropolitana, até então considerado modelo de mobilidade.

Com um total de 32 empresas de transporte na capital e região metropolitana e cerca de 17 mil empregos diretos, Curitiba - PR vive um cenário de dificuldades financeiras em todas as operadoras. A falta de subsídios estaduais e municipais, as gratuidades nas passagens para parcelas da população – como idosos e crianças – e os reajustes tarifários abaixo do necessário são algumas queixas. “Os custos são maiores que a receita, o que causa desequilíbrio nas empresas e, consequentemente, dificuldade em manter linhas e aumentar a qualidade para o cidadão”, explica o presidente do Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba e Região Metropolitana (Setransp), Maurício Gulin. Não bastassem os sacrifícios para manter a operação, as empresas esbarram, ainda, na falta de recursos para investir em projetos considerados fundamentais para a melhoria do transporte público. “Curitiba é modelo no que diz respeito ao sistema de BRT [Transporte Rápido por Ônibus], por exemplo, mas é preciso investir sempre mais”, afirma Gulin. “Os empresários acabam absorvendo os impactos do custeio e não conseguem implantar melhorias para atrair o passageiro”, acrescenta o vice-presidente da Setransp, Lessandro Zen.

Mas como deve ser esse financiamento justo do espaço urbano como foi citado nesta matéria?

Uma das repostas é a tributação sobre as formas de deslocamento que mais ocupam a cidade e que menos transportam pessoas. Não é penalizar quem usa carro ou moto e sim tirar todo custo das costas de quem usa transporte público.

São várias as ideias para isso. A que mais ganha força é a destinação do imposto sobre combustíveis, a Cide, para o transporte coletivo. Assim o transporte individual contribuiria em parte para quem usa mais racionalmente a cidade e polui menos ao andar de transporte público.

A PEC – Proposta de Emenda à Constituição 179/07, é do então deputado federal e atual secretário municipal de Transportes de São Paulo, Jilmar Tatto, o maior sistema de ônibus da América Latina, que transporta 6 milhões de pessoas por dia e que, mesmo contanto com R$ 1,9 bilhão de subsídios por ano, ainda encontra dificuldades financeiras

“O automóvel ocupa, hoje, 75% do espaço viário nos grandes centros urbanos, e transporta apenas 20% da população. Já o ônibus ocupa pouco mais de 9% e carrega 75% das pessoas. A taxação dos veículos particulares por meio da gasolina democratiza, portanto, o uso do espaço público. É o modal individual financiando o público, o que beneficia a todos. Nossa expectativa é de que a proposta seja aprovada. A partir daí, cada município fará uma lei específica regulamentando a matéria” – disse Tatto à Revista.

O engenheiro civil e sociólogo, com doutorado em Ciências Políticas (USP), assessor da ANTP - Associação Nacional de Transportes Públicos e da CAF - Banco de Desarrolo de América Latina, Eduardo Vasconcelos, concorda, e fala sobre os impactos negativos para todos quando as pessoas deixam o transporte coletivo.

“O uso do automóvel tem várias consequências negativas quando comparado ao uso do transporte público. O uso do automóvel requer muito espaço viário – 40m2 para circular nas cidades a uma velocidade media de 25 km/h - que é incompatível com a capacidade do sistema viário e gera congestionamento; consumo maior de energia por pessoa transportada; emissão de gases de efeito estufa muito maior por pessoa transportada e maior probabilidade de ocorrência de acidentes.”

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes.